Olá,
A inadimplência do crédito rural para pessoas físicas subiu de 7,5% em junho para 8,8% em julho, segundo dados divulgados pelo Banco Central em 28 de agosto — o maior índice desde o início da série histórica, em março de 2011.
O número é expressivo. Mas ele esconde um dado ainda mais relevante.
O que os dados gerais não mostram.
Nas operações contratadas a taxas de mercado — sem subsídio governamental — a inadimplência saltou de 13,1% em junho para 15,5% em julho, também recorde histórico da série. A diferença entre os dois grupos ajuda a dimensionar o peso do custo financeiro sobre o produtor: a inadimplência nas linhas a taxas de mercado é hoje mais de quatro vezes superior à registrada nas operações com juros controlados.
A carteira total de crédito rural para pessoas físicas somou R$ 557,28 bilhões em julho. Entre as pessoas jurídicas, a inadimplência permanece controlada — apenas 0,9% em julho, com leve avanço em relação aos 0,8% registrados em junho.
O estresse, portanto, está concentrado inteiramente no produtor pessoa física que opera fora do crédito subsidiado. É exatamente esse o perfil de ativo que chega ao mercado de recuperação de crédito.
A trajetória que preocupa.
Em julho de 2024, a inadimplência estava próxima de 1,9%. Um ano depois havia avançado para 4,5% e agora alcança 8,8%. Uma deterioração de quase cinco vezes em dois anos.
O custo do dinheiro também aumentou em julho. A taxa média do crédito rural para pessoas físicas passou de 10,5% para 11,3% ao ano. Nas operações com juros controlados, subiu de 9,2% para 9,6%, enquanto nas linhas de mercado avançou de 12,1% para 13,4% ao ano.
O governo reagiu — mas ainda sem efeito visível.
A Medida Provisória 1.376/2026 criou condições para reestruturação de dívidas rurais e foi apresentada com potencial de alcançar até R$ 100 bilhões em operações. Publicada em julho, a medida ainda não produziu impacto capaz de aparecer nos indicadores do Banco Central. A operacionalização das renegociações enfrentou dificuldades nas instituições financeiras e o setor produtivo vem cobrando mudanças para ampliar o alcance da medida.
O presidente do Instituto do Agronegócio, Isan Rezende, avalia que o novo recorde não pode ser interpretado como um problema isolado de produtores que assumiram dívidas acima de sua capacidade. “Quando a inadimplência alcança o maior nível de uma série de 15 anos, deixa de ser possível tratar o problema como dificuldade individual de alguns produtores.”
O que isso representa para o mercado de crédito.
O agronegócio já liderava os pedidos de recuperação judicial em 2025, com 30,1% dos CNPJs envolvidos. Os dados de julho reforçam que essa tendência não apenas persiste como se acelera.
Carteiras de crédito rural a taxas de mercado, inadimplentes e fora do alcance do crédito subsidiado, tendem a chegar ao mercado de cessão e recuperação com maior frequência nos próximos meses. Os próximos meses mostrarão se a renegociação autorizada pelo governo será suficiente para interromper essa trajetória. Por enquanto, a curva ainda segue na direção contrária.
Para quem atua no mercado de crédito estressado, esse é um dos movimentos mais relevantes a acompanhar no segundo semestre de 2026.
