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Análises, bastidores e movimentos do mercado de ativos estressados, toda semana, com a visão de quem vive o setor.

Duas pontas, um só crédito

Olá,

De um lado, o funding nunca esteve tão forte. Os FIDCs captaram R$ 30,6 bilhões líquidos no primeiro semestre de 2026, segundo a Anbima — crescimento de 36,5% sobre o mesmo período de 2025. Foram 406 emissões de fundos de recebíveis no período, contra apenas 237 operações de debêntures no mercado de capitais. Essa classe caminha lado a lado com FIPs (R$ 32,1 bi captados) dentro de uma indústria de fundos que somou R$ 184,7 bilhões em captação líquida no semestre — mais que o dobro dos R$ 84 bilhões do mesmo período do ano passado.

Do outro lado, a oferta de ativos estressados nunca esteve tão grande. O Brasil fechou 2025 com 2.466 empresas em recuperação judicial — recorde da série histórica, alta de 13% sobre 2024. Em janeiro de 2026, eram 8,7 milhões de CNPJs negativados, com dívida média de R$ 23 mil e cerca de sete restrições por empresa. E o problema é concentrado: em junho de 2026, do total de R$ 85,1 bilhões em crédito empresarial vencido há mais de 90 dias, R$ 75,6 bilhões — quase 89% — estavam nas mãos de micro, pequenas e médias empresas. É esse segmento pulverizado que mais alimenta o funil de cessão de carteiras.

Não é coincidência que os dois movimentos aconteçam juntos. É o mesmo ciclo, visto de dois lados do balanço. Juros ainda restritivos — Selic em 14% ao ano mesmo após quatro cortes seguidos, com juro real brasileiro entre os mais altos do mundo (~9,3% a.a.) — seguem pressionando o caixa das empresas. Isso empurra inadimplência e recuperação judicial para cima, gera oferta crescente de crédito vencido, e essa oferta encontra do outro lado um volume recorde de capital institucional buscando prêmio fora da renda fixa tradicional, via estruturas como FIDCs especializados em NPL.

Quem entende essa engrenagem completa — análise de carteira, jurimetria, capacidade de recuperação e governança do veículo — não está só reagindo à crise. Está estruturando a próxima safra de oportunidade.

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