Olá,
No fim de julho, o Santander Espanha ofertou €1,91 bilhão (R$ 11,2 bilhões) para comprar os cerca de 10% do Santander Brasil que ainda não detinha — a matriz já era dona de aproximadamente 90% do banco.
À primeira vista, parece só mais uma reorganização societária. Mas o momento escolhido conta uma história mais interessante.
Uma aposta na baixa
A operação brasileira vem entregando retorno (ROE) de 13% a 14%, abaixo do custo de capital projetado até 2027. É o tipo de cenário que costuma afastar investidor — e o Santander fez o oposto: decidiu comprar 100% do resultado futuro exatamente quando a ação está pressionada, pagando ainda um prêmio de 15% e projetando ganho por ação a partir de 2028.
Não é resgate de um ativo em risco — o banco dá lucro. É uma aposta fria e oportunista: consolidar o controle total de um ativo conhecido enquanto o preço está convidativo, apostando na recuperação.
O contraste que chama atenção
Esse movimento ganha peso quando olhamos para a direção oposta. A Ford encerrou suas fábricas após 103 anos no país; a Sony deixou Manaus depois de quase cinco décadas; a LafargeHolcim iniciou sua retirada — todas citando crescimento morno e retorno abaixo do esperado.
Ou seja: diante do mesmo Brasil, uns desistem e o maior banco da Europa dobra a aposta. A diferença não está no país — está na leitura de cada um sobre o que vem depois.
O pano de fundo é o mesmo para todos
Seja para sair, seja para comprar na baixa, todos reagem à mesma realidade: Selic a 15%, crescimento fraco e custo de capital elevado. E essa pressão tem um espelho doméstico eloquente.
O Brasil fechou 2025 com recorde de recuperações judiciais — 977 processos, envolvendo 2.466 CNPJs (Serasa Experian) — e o primeiro semestre de 2026 somou 593 novos pedidos. O agravante: o recorde atinge sobretudo empresas operacionalmente viáveis, saudáveis na operação, mas estranguladas pela estrutura de capital.
É nesse ambiente que carteiras de crédito se deterioram e imobilizam capital que faz falta. A cessão de crédito transforma essas operações em liquidez e devolve fôlego ao caixa da instituição — a mesma lógica que leva um grande player a comprar na baixa: reposicionar capital para o próximo ciclo.
